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O adeus de Kobe

Um dos maiores jogadores da NBA morreu ao lado da filha, estrela em ascensão nas quadras. Relembre alguns pontos da trajetória do jogador

 

Por Felipe Alves e William Reis

01/06/2020 -  Atualizado há um dia

O luto vai além de Los Angeles. A morte trágica de um dos maiores jogadores da história dos Lakers abalou o mundo. Kobe Bryant morreu no dia 26 de janeiro de 2020, aos 41 anos, em um acidente de helicóptero na região de Calabasas, em um dos condados da Califórnia, cuja causa da queda ainda está sendo investigada. 

A tragédia foi ainda maior do inicialmente noticiado. O basquete não perdeu apenas Kobe. Junto a ele no helicóptero estava um dos frutos de seu legado das quadras. A filha Gianna, de 13 anos, estava entre as outras oito vítimas (fatais) do acidente. Todos estavam a caminho da Mamba Academy, para um jogo. Gigi tinha potencial e pretensões em chegar até a WNBA. 

Assim que as primeiras notícias do acidente começaram a circular, uma onda de choque tomou conta das redes sociais. Figuras ilustres rapidamente se movimentaram para prestar gestos de homenagem. 

O Na Bandeja relembra como Kobe Bryant se tornou na maior lenda do basquete, pós Michael Jordan, com uma mentalidade obcecada pela vitória, passando pelo legado, vida familiar e seu último jogo com a camisa dos Los Angeles Lakers.

MAMBA MENTALITY: O PERFECCIONISMO QUE GEROU O SUCESSO DE KOBE

Já muito se falou sobre a sua importância, a sua personalidade e maneira de estar nas quadras e na vida. Em tudo isso se inclui o chamado “mamba mentality”. A cultura incutida pelo Kobe Bryant, que se tornou uma imagem de marca, e que agora se tornou o legado imaterial do astro, é a filosofia que move seu jogo. 

Kobe chegou a encarar, logo após seu draft – com o curioso fato de migrar do basquete de ensino médio à NBA diretamente, o Chicago Bulls de Michael Jordan. Desde então, indícios de sua obsessão já eram visíveis. Horace Grant (56), companheiro de Jordan naquele Chicago Bulls, em entrevista à revista SLAM, enfatizou o modus operandi de Kobe em quadra. “Michael olhava em seus olhos enquanto sacudia os braços. Kobe chegava a sorrir. Enquanto ele sorria, era curioso ver que ele já pensava em algo. Ele era diabólico assim”, diz o pivô.

 

A disposição à sacrifícios de Kobe também era algo que impressionava. O propósito do jogador era chegar a exaustão no intuito da grandeza. Shaquille O’Neal, companheiro de Kobe em três anéis do Lakers, relata como era a intensidade do atleta. “Kobe era obcecado. Durante a temporada, ele trabalhava extremamente duro. Mas fora da temporada? Era um animal. Ele acordava às 5h da manhã, ficava no ginásio por quatro horas arremessando e trabalhando os movimentos de costas para a cesta”, diz.

 

Sob um espírito de competição bastante ativo, Kobe moldou sua carreira e fez o Lakers conquistar 5 anéis. Os últimos dois caracterizados com o seu total protagonismo e imersão ao Mamba Mentality. Além de deixar um legado. Greg Popovich, atual técnico do San Antonio Spurs e da seleção estadunidense de basquete, em entrevista à ESPN, chamou a atenção dessa característica. “Todos nós sabemos o quão grande ele era como jogador, mas ele foi além do jogo. Ele era um competidor, e isso não tem igual. Foi o que o tornou tão atraente para todo mundo: seu foco, competitividade e desejo de vencer”, disse o treinador. 

“É legítimo não sacrificar por razões válidas, mas só assim se alcança a grandeza” - Kobe Bryant, 2009

MAMBACITA: O LEGADO INTERROMPIDO

O retorno de Kobe às quadras tomou nova forma após sua aposentadoria. Isso se deu pelo fato de sua filha, Gianna, ser um prodígio do esporte na categoria feminina. Conhecida por Gigi ou “Mambacita”, a jogadora herdava o estilo dos arremessos e incisividade de jogo que lembrava o pai. Parecia, então, predestinada a carregar o legado de Kobe. 

Costumeiramente eram vistos em jogos da NBA, WNBA e NCAA. Uma semana antes do acidente, Kobe relatou ao canal ABC que Gigi estava aprendendo, de forma precoce, o “fadeaway jumper”, o díficil arremesso com salto em queda para trás, que ele propriamente desfilava nas quadras. 

 

Enquanto a WNBA esperava pelo amadurecimento de Gigi, muitos times universitários já estavam interessados na ideia de contar com a jogadora. A vontade da Mambacita era de pertencer a equipe de UConn. 

Junto de sua dedicação pela filha, Kobe aderiu ao discurso feminista no esporte. Além de ser fundador do time de Gigi, o jogador dava constantes declarações de que muitas jogadores femininas podem competir de forma igual com atletas da NBA. “Acho que existem algumas jogadoras que poderiam jogar na NBA agora, honestamente. Muitas jogadoras têm muita habilidade que poderiam fazer isso. Diana Taurasi, Maya Moore, Delle-Donne. Quero dizer, existem muitas grandes jogadoras por aí. Elas certamente poderiam acompanhá-los”, disse Kobe à ESPN. 

Kobe deixa três filhas: Natalia, 17, Bianka, 3, e Capri, de apenas 7 meses. 

“Eu tenho uma filha mulher que pode carregar meu legado” - Kobe Bryant, à Jimmel Kimmel da ABC, 2017

OSCAR E KOBE

Até os grandes atletas tem seus ídolos, suas inspirações. E com Kobe não foi diferente. Em sua vida, ele foi capaz de ver grandes atletas como os que faziam parte do Dream Team, das olimpíadas de 1992. Porém, outro atleta chamava a atenção de Kobe, alguém muito conhecido para nós, brasileiros. Esse alguém era Oscar Schmidt, e encantava o jovem Kobe, que estava morando na europa, pois seu pai, Joe Bryant, jogava no velho continente.

Para entender quem foi Kobe Bean Bryant no basquete, primeiramente devemos saber quem foi Oscar, que para aquele garoto ainda muito pequeno era La Bomba, um apelido que mostrava quem foi Oscar. Dono de uma habilidade descomunal, ele era capaz de fazer um show em todas as noites. 

Semelhanças são perceptíveis entre os dois. Ambos se comportavam da mesma maneira, em relação a ética de trabalho. Não são poucas as histórias de que tanto Kobe, quanto Oscar chegavam a passar diversas horas treinando, tentando aperfeiçoar seus fundamentos. 

Em 2013, quando Oscar e Kobe se encontraram em um evento em São Paulo, o astro dos Lakers rasgou elogios ao brasileiro, para quem até criou um apelido: “Quando eu estava crescendo, assistia a ele jogar na Itália, ele jogava contra o meu pai e era demais. Eu nem conhecia ele por Oscar, sempre o chamei de La Bomba”.

Kobe, foi leal ao Los Angeles Lakers, time que defendeu durante toda sua carreira, desde a troca, após seu draft. Oscar, por outro lado, foi leal ao Brasil, ao escolher não jogar pela NBA, pois em sua época, atletas que jogavam em equipes da NBA não podiam representar suas seleções. Cada um foi mítico em sua forma. 

O ÚLTIMO ATO

Em qualquer esporte, quantas pessoas tem tamanho prestígio a ponto de terem uma espécie de turnê de despedida? Os exemplos são mínimos, e Kobe teve essa oportunidade.

Depois de anos em um time que sofreu em termos de elenco, e após casos recorrentes de lesão, Kobe decidiu parar. Para justificar sua aposentadoria, Kobe declarava que sempre esteve focado no jogo, com o basquete sendo prioridade em sua mente. 

A cada jogo de Kobe, as expectativas aumentavam gradativamente, pois a carreira de uma lenda iria se encerrar, e eram poucos aqueles que tiveram um desempenho melhor do que o dele. E o dia da despedida chegou.

No dia 13 de abril de 2016, a cidade de Los Angeles parou. Todas as atenções estavam voltadas para o Staples Center, casa dos Lakers. A partida entre Los Angeles Lakers contra Utah Jazz seria o último ato de uma estrela, um jogador que mudou padrões, que inspirou diversas pessoas, sejam jogadores ou não, a serem pessoas melhores, a se dedicarem mais. 

A arena estava lotada, até seus arredores estavam cheios de fãs, que queriam estar por perto daquele momento. Torcedores e jogadores não conseguiam se conter, sabiam que estavam presentes num dia muito diferente, porém não sabiam o que iria acontecer. Sob muitas homenagens, uma em especial: Magic Johnson, um dos maiores armadores da história dos Los Angeles Lakers, enfatizou o gigantismo de Kobe. “É o maior jogador da história desse time e hoje nós estamos despedindo disso”, diz. 

Sobe a bola, e o Utah Jazz domina a partida, porém todas as atenções estão voltadas para Kobe. Na transmissão oficial, além do placar do jogo, existia uma seção dedicada para sua pontuação. No intervalo, os Lakers perdiam de 57 a 42, e Kobe estava com 22 pontos, já impressionantes, mas que ainda iriam melhorar.

No período final, nos últimos 12 minutos de uma carreira gigantesca, as coisas ainda eram iguais, durante 9 minutos. Depois disso, tudo mudou. Kobe tinha marcado 8 pontos até então, num total de 45, uma ótima marca até para quem não está no seu auge, mas seu time ainda perdia por 10 pontos.

A partir daquele momento, Kobe parecia ser outra pessoa, e cesta após cesta, ele comandava uma virada, com cestas de quase todos os tipos, tudo ao estilo Mamba. Em 3 minutos, Kobe marcou 15 pontos, totalizando 60, e sua despedida foi a maior da história da liga. O último lance de Kobe todos imaginariam que seria uma enterrada, ou uma cesta de 3. Porém, para um jogador que era considerado egoísta, seu último lance foi, ironicamente uma assistência para a enterrada de Jordan Clarkson. Fim da partida, vitória dos Lakers, 101 a 96. 

Em seu discurso final, Kobe disse sobre sua infância, que sempre foi torcedor dos Lakers, se declarou para uma torcida que o acompanhou de perto por 20 anos, que vibrou junto, comemorou junto e ficou triste junto. Toda sua carreira foi no mesmo lugar, lugar esse que o eternizou, e em sua longa estadia viu 5 campeonatos. Kobe foi um atleta como poucos, e seu último ato não poderia terminar de maneira melhor. E suas últimas palavras naquela arena como jogador, mostram seu impacto e sua representatividade: “Mamba out”.

Últimos minutos da carreira de Kobe Bryant:

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Mural em homenagem ao jogador em Los Angeles  -  Foto/Reprodução: Public Domain Pictures                                                                

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